BOI ORGÂNICO, BOI VERDE E CONVENCIONAL CAMINHAM NA MESMA DIREÇÃO.



Há grande otimismo quanto ao futuro da produção de carne no Brasil e, especialmente, quanto ao aumento da participação no mercado externo. Para a carne brasileira conquistar o mercado internacional, contudo, terá que passar pelo exigente crivo do consumidor externo e há desafios a serem superados:
1) Um dos problemas da carne de zebuínos, o genótipo predominante, é sua dureza (e muitas vezes o que é macio para o mercado interno, pode não ser para o mercado externo).
2) Animais terminados a pasto costumam ter carcaças que predispõe problemas de maciez (menor cobertura de gordura, menor conteúdo de glicogênio).
3) A maioria dos dados mostram que animais terminados a pasto costumam ter maiores problemas de sabor, em parte, por causa de um maior conteúdo de ácidos graxos insaturados que são mais facilmente oxidados (rancificados), mas com muitos outros fatores podendo estar implicados.

Nenhum desses desafios é insolúvel: os problemas de maciez podem ser minimizados ou contornados por tecnologias de manejo pré e, especialmente, pós-abate e é possível que, nas nossas condições tropicais, os problemas com sabor sejam menores do que no caso dos animais criados em condições temperadas.

O "Boi Verde", isto é, criado predominantemente a pasto é um grande trunfo em nossas mãos, não só pela competitividade em termos de menor custo, mas pelo fato das pessoas acreditarem que sua carne seria mais saudável que a produzida por meios mais intensivos. Todavia tiramos pouco proveito disso. Ainda não temos uma boa caracterização da qualidade da carne do boi a pasto que produzimos hoje e isso é fundamental para possibilitar a formulação das melhores estratégias para o sucesso do "Brazilian Beef". Esforços de pesquisa estão sendo feitos neste sentido.

Apesar da relação entre abertura de pastagens e derrubadas de florestas, o que predispõe muita gente contra a pecuária, não seria muito difícil mostrar que não há necessidade de incorporação de novas áreas para haver aumentos de produção pois há grande potencial para aumentos de produtividade. Mais interessante ainda, se mostrássemos que a pecuária é uma das atividades para produção de alimentos menos agressivas ao ambiente que existe e com a melhor relação entre energia gerada (como produtos alimentares) por unidade de energia gasta. Enfim, o "Boi Verde" seria um aliado na questão ambiental e não o vilão, como normalmente é retratado.

É interessante diferenciar o "Boi Verde" do "Boi Orgânico". O primeiro seria produzido predominantemente em pastagens e, no Brasil, quase poderia ser usado como sinônimo do "Boi convencional". O segundo, teria necessidade de certificação, que garante que ele foi, de fato, produzido de acordo com todas as normas "orgânicas", como não uso de fertilizantes industriais e inúmeras outras exigências. Apesar de haver variantes, advoga-se que " o Boi Orgânico estaria inserido em uma filosofia holística que, além da produção de carne, preocupar-se-ia com os aspectos sociais e ambientais envolvidos". Um exemplo de norma fora do estrito contexto da produção, é a exigência que todas as crianças da fazenda estejam freqüentando a escola.
O mercado para "Boi Orgânico" é restrito, pois ele é mais caro por unidade de carne produzida em função da menor produtividade pela proibição de insumos modernos ou pelo maior custo para manter uma produção equivalente. Com os recursos tecnológicos de hoje, é bastante improvável que a produção orgânica possa substituir a convencional. Além disso, o preço maior que é pago pelos produtos orgânicos só ocorre por ele ser uma alternativa ao convencional e a demanda ser, atualmente, maior que a oferta. Isso, não significa, porém que não seja interessante produzir "Boi Orgânico", mas que ele é um produto para um nicho de mercado, não para as massas. Pesquisas na Europa mostraram que havia mais pessoas que diziam-se dispostas a defender o ambiente, do que efetivamente as que pagavam mais por um produto "ecologicamente correto". Evidente que, no caso da carne, isso pode mudar um pouco de figura, por se tratar da premissa de benefício para própria saúde. Apoiando a tese que nem todos consumidores seriam seduzidos pela suposta maior segurança do "Boi Orgânico", podemos citar que mesmo após 40 anos de feroz (e injusta) campanha para redução de consumo de carne bovina, ela ainda é um produto valorizado e, em países como o Brasil, existe grande resposta a aumento de seu consumo, quando há aumento de renda pela população.

Aqui temos um ponto importante para a reflexão. É´ evidente que a criação de mais uma oportunidade de comercialização de carne seja bem vinda, especialmente se tem demanda e pessoas dispostas a pagar mais por ela. Não se trata, portanto de condenar a atividade que é válida e deve ser estimulada. Existe, todavia, um aspecto sensível entre o "Boi Orgânico" e a pecuária convencional. Afinal de contas, temos que convencer o consumidor que vale a pena pagar mas caro pelo "Boi Orgânico". Há os que optam pelo "Boi Orgânico" principalmente por motivos ideológicos: é mais amigável ao ambiente, não depende de insumos de empresas capitalistas, os animais tem mais conforto e outros motivos nesta linha. Outros, e talvez sejam a maioria, estariam mais interessados na suposta maior qualidade da carne do "Boi Orgânico" em relação a carne produzida convencionalmente. O imaginário popular com relação a carne bovina está cheio de preconceitos: ela seria cheia de toxinas, hormônios, antibióticos, além do "campeão" de condenação da carne, o colesterol. As pessoas envolvidas na produção de "Boi Orgânico" devem resistir a tentação de promovê-lo se valendo de cada um desses pontos, a não ser que algum deles seja embasado por dados científicos de reconhecida qualidade.

Poderíamos tentar comprovar se a carne do "Boi Orgânico" é mais saudável que a do "Boi convencional", mas isso seria bastante caro e, provavelmente, inútil. Ainda que num abrangente experimento chegássemos a conclusão que elas fossem equivalentes, o "Boi Orgânico" sempre teria a vantagem de ser certificada e, assim, ser mais garantida contra falhas de produção. Entretanto, até prova em contrário, a carne produzida com boas práticas, tanto no campo, como em frigoríficos devidamente inspecionados, é um alimento saudável. Isso inclui, também, as carnes produzidas em sistemas mais intensivos, como confinamentos. Se não fosse assim, deveríamos suspender sua comercialização.

Sendo promovido às custas de mitos sobre a carne convencional, o futuro do "Boi Orgânico" poderia estar sendo minado. Esta estratégia poderia pressionar muitos criadores a migrarem para o "Boi Orgânico". A oferta aumentaria, ajudando a equilibrar a demanda e fazendo com que o adicional pago ao bovinocultores orgânicos não fosse mais necessário. Ainda que isso não ocorresse de forma muito intensa, uma campanha contra a carne bovina convencional, provavelmente, teria reflexo também no consumo de carne bovina produzida pelo sistema orgânico. Em outras palavras, uma "troca de farpas" entre os sistemas convencional e orgânico pode beneficiar a venda de frangos, de suínos ou estimular o vegetarianismo.
Vale lembrar que a tática de denegrir a imagem da carne bovina é usada por várias outras fontes de proteína concorrentes. Recentemente, em uma revista semanal de importância nacional foi apresentada uma tabela em que foram comparadas a carne de cavalo com a carne bovina. O valor atribuído para o teor de gordura da carne bovina nesta tabela era 10 vezes maior que o da carne de cavalo. O problema, é que esse valor, apesar de até ser possível, não representa valores usuais, mais adequados para se utilizar em uma comparação desta natureza, além do que muitos cortes bovinos poderiam ter valores iguais aos apresentados para cavalo. Sem surpresa, nenhuma fonte foi citada.

Enfim, é preciso tentar entender que todos aqueles envolvidos com o "complexo carne" estão num mesmo barco e, mesmo que sejam antagônicos, como o "Boi Orgânico" e o convencional, diferentes correntes de produção devem fazer o máximo ao seu alcance para unir forças, aonde for possível. E os três principais desafios em busca do mercado externo, mencionados no início do texto, são comuns a todos os sistemas de produção a pasto. Em um mundo globalizado e altamente competitivo, o isolamento pode ser um erro fatal. Negociar e, através dos resultados desta negociação, participar com direitos e deveres de movimentos mais organizados, pode trazer vantagens para todos. Um deles, poderia ser a defesa e a promoção da carne.


Sérgio Raposo de Medeiros é pesquisador da Embrapa Pantanal (webmaster@cpap.embrapa.br)

 

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